Segue trecho do capítulo 5 “Por uma antropologia da comunicação: Gregory Bateson” de Etienne Samain (professor da Unicamp – “O fotográfico” organizado por ele, indico) da obra “O imaginário e poético nas ciências sociais”, organizado por duas antropólogas (Cornelia Eckert – UFRGS e Sylvia Caiuby Novaes – USP) e um sociólogo (José de Souza Martins – USP)

A obra de Bateson desconcerta muitas vezes o leitor provalvelmente porque seu autor o convida sempre a “aprender a aprender.” Pode-se dizer que todo empreendimento intectual de Bateson é atravessado pela tentativa sistemática de ensinar as pessoas a pensar. A escritura batesoniana é, sem dúvida alguma, densa e extremamente rigorosa, mas é menos o estilo de Bateson do que sua maneira de pensar que surpreende. A originalidade deste pensamento não consiste apenas em encontrar as idéias precisas e as palavras exatas, mas, também, em construir verdadeiras estratégias heurísticas para seu leitor. Entre elas, a mais instigante é a que se propõe a levantar perguntas e, sobretudo, a formulá-las.

Nas páginas que antecedem, fiz referência aos metálogos, isto é, nos termos de Bateson, a essas “conversas acerca de um assunto problemático”. Efetivamente diálogos, no caso, entre um “Pai” (Bateson) e a “Filha” (sua filha, Mary Catherine), que levantam questões inesperadas tais como: “Por que é que as coisas sempre se colocam em desordem?”; “Pai, por que as coisas têm contornos?”; O que é um instinto?”; “Papai, por que você conta histórias?”.

Releio e apresento (em parte) um desses metálogos que, geralmente, não excedem cinco páginas e aliam ao rigor lógico e científico do debate, o pitoresco de um humor bem britânico.

O metálogo em pauta começa com a pergunta da filha:

– Pai, quanto é que você sabe?

O pai responde:

– Eu? Hum! Tenho cerca de uma libra de conhecimento.

– Não vale assim. É uma libra em dinheiro ou uma libra em peso? O que eu quero saber é quanto é que você sabe verdadeiramente.

– Bem, o meu cérebro pesa cerca de duas libras e suponho que só uso uma quarta parte dele, ou, em outras palavras, que o uso com cerca de um quarto de suas possibilidades. Portanto, vamos dizer, meia libra.

Após uma série de reflexões sobre a “estrutura que conecta” os saberes humanos (como a trama num tecido), o metálogo volta ao seu ponto de partida com uma nova pergunta da filha:

-Pai, por que você não usa os três outros quartos do seu cérebro?

– Oh, está bem… veja… o problema é que eu também tive professores e eles encheram cerca de um quarto do meu cérebro com névoa. Depois li jornais e ouvi o que os outros diziam e isso encheu mais um quarto com névoa.

A filha interrompe:

– E o terceiro quarto?

– Oh! Isso foi o nevoeiro que eu mesmo gerei enquanto tentava pensar.

Foto: Gregory Bateson e seu cãozinho

 

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