Transcreverei um trecho de um pequeno livro azul que muito me auxiliou, não só no recorte de meu tema de pesquisa, como, de maior valia ainda, na compreensão deste universo tão próximo e que, paradoxalmente, sempre nos escapa. Aqui, Norbet Elias evidencia a importância do que ele denomina de auto-imagem  no processo de construção da alteridade onde o aspecto emocional e afetivo é fundamental, mais que isso: já com uma idade avançada, o sociólogo narra como um episódio de sua própria vida pode elucidar este afastamento em relação aos nossos idosos. Segue, página 79:

Uma experiência de juventude assumiu certa significação para mim agora que sou mais velho. Assisti a uma conferência de um fìsico muito conhecido em Cambridge. Ele entrou devagar, arrastando os pés, um homem muito velho. Eu me surpreendi pensando: “Por que ele arrasta os pés assim? Na hora, me corrigi: “Não pode evitar, é muito velho.”

Minha espontânea reação juvenil à visão de um velho é típica da espécie de sentimentos que a visão dos velhos suscita hoje, e talvez ainda mais em tempos passados, em pessoas saudáveis nos grupos de “idade normal.” Elas sabem que os velhos, mesmo quando saudáveis, muitas vezes têm dificuldade em mover-se da mesma maneira que pessoas saudáveis de outra faixa etária, exceto as crianças pequenas. Sabem disso, mas de maneira remota. Não podem imaginar a situação em que as próprias pernas e tronco deixam de obedecer à sua vontade, como seria normal.

Uso deliberadamente a palavra “normal”. Que as pessoas se tornem diferentes quando envelhecem é muitas vezes visto, embora involuntariamente, como desvio da norma social. Os outros, os grupos de “idade normal”, muitas vezes têm dificuldade em se colocar no lugar dos mais velhos na experiência de envelhecer – o que é compreensível. Pois a maioria das pessoas mais jovens não tem base na experiência própria para imaginar o que ocorre quando o tecido muscular endurece gradualmente, ficando às vezes flácido, quando as juntas enrijecem e a renovação das células se torna mais lenta. Os processos fisiológicos são bem conhecidos pela ciência e parcialmente compreendidos. Há extensa literatura sobre o tema. Muito menos compreendida, e menos abordada na literatura, é a própria experiência do envelhecimento. É um tópico pouco discutido. Não deixa de ser importante para o tratamento dos velhos por aqueles que não o são -ou ainda não o são-, e não apenas para o tratamento médico, ter uma compreensão maior e mais detalhada da experiência do envelhecimento, e também da morte. Mas claramente, como já disse, há dificuldades especiais que impedem a empatia. Não é fácil imaginar que o nosso próprio corpo, tão cheio de frescor e muitas vezes de sensações agradáveis, pode ficar vagaroso, cansado e desajeitado. Não podemos imaginá-lo e, no fundo, não o queremos. Dito de outra maneira, a identificação com os velhos e com os morimbundos compreensivelmente coloca dificuldades especiais para as pessoas de outras faixas etárias. Consciente ou inconscientemente, elas resistem à idéia de seu próprio envelhecimento e morte tanto quanto possível.

Essa resistência, esse processo de recalcamento, é, por razões às quais retornarei, provavelmente mais evidente nas sociedades desenvolvidas que nas menos desenvolvidas. Agora que estou velho se, por assim dizer, pelo outro lado, quão difícil é para as pessoas jovens ou de meia-idade entender a situação e a experiência dos velhos. Muitos de meus conhecidos me dizem palavras gentis como: “Impressionante! Como você se consegue manter saudável? Na sua idade!” ou “Você ainda nada? Que maravilha!” Sinto-me um equilibrista, familiarizado com os riscos de seu modo de vida e razoavelmente certo de que alcançará a escada na outra ponta da corda, voltando ao chão tranquilamente a seu devido tempo. Mas as pessoas que assistem a isso de baixo sabem que ele pode cair a qualquer momento e o contemplam excitadas e um tanto assustadas.

Norbert Elias

 

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