Fabíola Morais

… mais aspas do livro “o imaginário e poético nas ciências sociais”

Capítulo em que Flávio Leonel Abreu e Silveira trata do fazer etnográfico:

“Da etnografia como experiência à antropologia histórica e por imagens”, destaque à essa passagem:

 

“Havia em mim uma sensação ambígua, uma espécie de regozijo assustador por ter que lidar com tais complexidades. Tratava-se de um grande conjunto de situações-problema que me levaram a realizar esquemas de pensamento e identificar tensões em torno do que se configurava como a minha questão etnográfica: compreender os vínculos dos missioneiros com as suas paisagens de pertença. Tudo, no entanto, convergia apra um ponto nodal pulsando nevrálgico: o tema da imagem. p. 264

Emilaine Prado

 

Segue agora, ainda pelo autor:

É preciso refletir sobre as escolhas que fazemos ao longo do percurso que traçamos para a trajetória pessoal e intelectual que se delineia com o passar do tempo. A experiência de uma vida está sempre atravessada por um vasto campo de possibilidades que nos impele a (re)definir o caminho a seguir, e mesmo a não temer as bifurcações possíveis, o novo e seu caráter perturbador, capaz de revelar os acertos e desvãos do trajeto. Digo isso porque a minha trajetória intectual reflete um pouco essa perspectiva pessoal e epistemológica.

Nunca compreendi bem o que me levou à antropologia. Creio que há nisso um misto de reflexão e intuição, ou ainda, de certas sutilezas de uma razão sensível que nos lança à não-linearidade do caminho e, talvez, a uma aposta na complexidade como forma de pensar a condição humana inserida num mundo em constante transformação, onde o humano se realiza como ser na medida em que o transforma e é transformado por ele.

(…)

Sendo biológo, tive que abrir mão de uma forma específica de pensar a fim de relativazá-la por um olhar antropológico, complexificando minha perspectiva. Foi isso que aprendi com meus mestres, foi isso que me fez seguir um caminho profícuo e incerto, porque vivido na tensão dos limites, na corda bamba da interdisciplinariedade, no imiscuído dos interstícios e seus dilemas disciplinares.

 

Tornei-me uma espécie de bioantropólogo e tenho, até certo ponto, a clareza de compreender que me situo à margem de ambas as disciplinas, ao mesmo em que me percebo totalmente inserido nelas. São os paradoxos presentes nesses interstícios que me interessam, portanto descarto a dicotomia entre “ciências duras” e “não duras” e, mais do que nunca, penso que precisamos ultrapassá-la, para evitarmos o enrijecimento das formas de pensar a fim de vislumbrarmos novos paradigmas em ciência.

Nesse sentido, a minha pesquisa refletiu esse clima epistemologicamente complexo. Não busquei respostas estasnques para nada, apenas a abertura de horizontes possíveis que me levassem a refletir sobre experiências culturais extremamente profundas com um conjunto de imagens potentes e capazes de falar do mundus imaginalis missioneiro da porção noroeste rio-grandense, bem como de questões minhas em relação ao pensamento antropológico. É por isso que optei pelos estudos do imaginário e da memória como a possibilidade de imersão nesse universo.

Se a antropologia è uma disciplina com horizontes mais ou menos abertos ao diálogo com os outros campos de saber (dependendo, obviamente, dos interesses intelectuais do antropólogo), adentrando e se imiscuindo em meio às demais formas de fazer ciência, é porque percebe as fronteiras ao mesmo tempo em que compreende a permeabilidade seletiva que estas detêm. É a partir deste ponto cego, e para além da turbidez, que ela desvela o oculto e amplia a mirada, sem negar a imagem e sequer a possibilidade do assombro.

Emilaine Prado

(a etnografia) Ela tende a se capilarizar e singularizar no ato mesmo de relativizar a produção científica como fenômeno de cultura, como forma específica de construção de saberes no Ocidente. As metáforas simmelianas da porta e da ponte são imagens fortes para uma antropologia em busca de transdisciplinaridade.

A narrativa etnográfica não é a vida como ela é, mas se nutre dela e de sua matéria instável porque a provisória e efêmera nos atos cotidianos, que se mesclam nas tradições em deriva no tempo, em experiências que dinamizam o mundo do Outro em que abarcam o existir do etnólogo. É essa energia sensível que anima um cosmos particular que o olhar etnográfico revela-se perspectiva singular de um personagem idiossincrático como é o antropólogo, ou ainda, surge como um ponto de um ponto de vista perspectivado pela proximidade do olhar nativo, que arrebata e impõe limites a essa visada curiosa, oriunda do sujeito em experiência de campo.

Parto do princípio de que a antropologia hermenêutica pode, no cruzamento de horizontes, visões e vicissitudes dos sujeitos em interação, revelando que as alteridades emergem no jogo dialógico pela tensão e congraçamento, pela abertura e fechamento ao Outro, pela vontade de interpretar como expressão do significar e viver. É disso tudo, que a antropologia que faço se nutre e não poderia ser diferente.

Emilaine Prado

(..)

(…) A fênix segue ressurgindo das cinzas como a imagem da ruína que se reintegra às paisagens formando um conjunto paisagístico novo. A ruína emerge como a possibilidade de recomeço. p.268

A imagem da pedra rolando no compartimento barroco reverba. Segue em queda livre no túnel fantástico, sem encontrar o fundo, ad infinitum. Não há fim. Apenas uma vaga ilusão de que ele exista.

Restam escombros. Cinzas de onde a fênix ressurge. Renovada, fantástica, exuberante. Há sempre um recomeço. A mirada da torre fantástica da catedral, alguma imagem barroca perdida na paisagem de uma história a ser contada por alguém. A vida ressurge dos lugares improváveis: diversa, violenta, solidária, arruinada, esquisita, bizarra… Imaginária.

(…) a etnografia é apenas uma visão entre tantas, uma possibilidade de erro e mera tentativa de acerto… Ponto de vista aderido à poética e às imagens do Outro. Saudade, admiração, repulsa… O contraditorial.

Nada do que tenha escrito me parece falso, porém jamais almeja ser Verdade. Apenas, impressões e possibilidades de dialógo.

A pedra segue caindo. As vidas seguem sendo vividas. As ruínas permanecem sendo o que são, renovadas em cada lembrança ou causo contado, mas esquecidas em cada ímpeto de segregá-las de sua paisagem, de protegê-las da “ignorância” do Outro como oferta ao olhar estrangeiro. Onde está a finitude?

A pedra segue caindo, Labirinto, dobradura, onirismo…. Ad infinitum

Emilaine Prado

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